A Persistência da Memória

O Cheiro da fumaça.

Março 21, 2008 · 3 Comentários

 O cheiro da fumaça persistia no meu nariz enquanto eu observava o vai-e-vem dos bombeiros nas escadas minúsculas e infinitas que chegavam ao meu apartamento.  Meus ouvidos estavam inativos para o mundo exterior, eles pertenciam às vozes do meu pensamento e não pude ouvir quando a “Madame” do primeiro andar me disse:

-Est-ce que vous voulez un café, un thé ? (Você quer um café, um chá ?)

Eu disse que não, ainda em estado de transe. E talvez, nesse momento, tenha entrado em um estado forçado de meditação. Meus pensamentos pararam de funcionar, assim como meus ouvidos. A única coisa que ainda insistia em permanecer, era o cheiro.Mesmo quando o bombeiro desceu as escadas, com o laptop nas mãos, dizendo que era a única coisa que restava, eu não conseguia achar as partes dentro de mim que me faziam sentir.  

Quando o Federico chegou, eu tive que dizer que não tínhamos mais nada. E com forças que nem sabia que existiam, segurei-o em prantos caídos, os dois na calçada, com cheiro de fumaça impregnado no nariz. As “Madames” foram para suas casas, os bombeiros se retiraram e a noite já tinham chegado sem que eu notasse. A policial, então, nos deu autorização de ver o que restou do apartamento.

Fui subindo as escadas devagarzinho enquanto o cheiro de fumaça ficava mais forte. Andava sobre as cinzas de coisas que eu nem sabia o que tinham sido minutos atrás. Meus pensamentos voltavam de pouco a pouco a funcionar e eu me perguntava o valor das coisas. O que realmente tem valor? Será que o valor que atribuímos está na memória? Então qual o critério da memória? Por que eu consigo me lembrar claramente aquele email que recebi há tanto tempo, lembro de todas as palavras, todas as vírgulas, mas não consigo me lembrar do nome daquela menina que costumava ser minha melhor amiga quando criança?Enquanto eu subia, desciam dos degraus folhas de livros queimadas. Lembrei de Fahrenheit 451 e os homens memorizando seus livros por amor. Será que o valor está no que amamos? Fui pensando o quanto amava minhas coisas e apagando elas automaticamente da memória. Roupas, cartas, fotos, livros e até meu passaporte. Viravam fumaça, assim como algumas partes de mim.  Afinal, a fragilidade da vida também me fez questionar o valor dela.

Quando cheguei ao topo, eu era uma pessoa livre de tudo. A única coisa que restava, era o cheiro da fumaça.

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