Para algumas pessoas o silêncio é aterrorizante. Minha mãe é assim. Quando disse que partiria, ela não parou de falar nem para respirar no travessão das palavras compostas. Assim ela conseguia afastar o medo ou a tristeza.
Eu era o oposto, companheira inseparável do silêncio. Enquanto ela falava que se- a –pia- entupir- eu- deveria- usar-bicarbonato-de-sódio, eu pensava nos meus dias calados e passados.
Na noite em claro, que passei olhando as estrelas e ouvindo o barulho do mar, que nesse contexto fazia parte do silêncio eminente. Ele estava ao meu lado e não usamos uma só palavra para nos comunicarmos. Mas nos entendemos melhor que qualquer conversa repleta de verbosidade inútil.
Ou quando perdi minha virgindade. A dor engolida com as palavras que me faltavam, assim como o ar, mas de alguma maneira se transformavam em gozo de prazer, que não era meu.
Foram as mesmas palavras, frases e expressões que não estavam lá quando vi o azul de positivo do meu teste de gravidez.
Mais uma vez minha língua preguiçosa não se movia, quando retiravam o único traço de vida do meu corpo inerte.
Então veio o choro não chorado, a primeiras palavras não ditas e a vida não vivida.
Também quando ele foi embora, de repente, sem dizer onde ia, sem dizer que não havia mais amor. Uma quietude que me inquietava.
-Você tem certeza que vai embora?
Minha mãe perguntou em um respiro da sua fala sem sentido
-Sim.
-Você sabe que seu lar estará sempre aqui, de portas abertas.
Era mentira, mentira materna, mas não menos ofensiva. Eu sabia que a partir do momento que fechasse a porta atrás de mim, perderia meu lar para sempre.
Abracei minha mãe. Sai de casa e bati a porta com força. Era o último barulho que a minha vida calada ouviria.
