Arquivo do mês: março 2008

O que acontece por aqui A mulher aranha

O “Centre pompidou” consagra uma grande retrospectiva do trabalho de Louise Bourgeois. 900M2 Para descobrir essa artista contemporânea, torturada, singular e influente.

O que teria se tornado Louise Bourgeois, se, quando ela fosse criança, ela não tivesse encontrado seu pai dando em cima de sua enfermeira? A questão merece ser feita já que a obra dessa artista de 96 anos é inspirada nos seus traumas de infância.

Essa catarse artística, Louise Bourgeois não renegou, pelo contrário. “Precisamos abandonar o passado todos os dias ou aceitá-lo. E se isso não acontecer, devemos esculpi-lo.”, ela diz.

A retrospectiva que la consagra no  Centre Pompidou” permite aos amadores de arte contemporânea descobrir seu trabalho. Primeiro o visitante é apresentado a sua família, as estátuas ao ar de totens africanos, antes de penetrar no coração dos seus sofrimentos. Todas suas criações foram inspiradas na temática do corpo, do casal, do sexo e a maternidade.

O ódio do pai se cristaliza nas espantosas esculturas cuja artista o destrói sem esquecer. Já suas homenagens a sua mãe, vinda de uma família de tecelões, são simbolizadas por uma aranha.

Cedendo aos seus impulsos criativos, Louise Bourgeois se exprime através de todos os suportes: madeira, gesso, látex, mármore ou bronze e também tecido. Essa multiplicidade de materiais traz uma verdadeira riqueza ao seu trabalho.

Em paralelo a exposição, as edições “Actes Sud “ Louise  Bourgeois. L`aveugle guidant l’aveugle (O cego guia o cego), de Mâkhi Xenakis e “Arte Video” propõe um documentário de 52 minutos realizado por Camille Guichard.Louise Bourgeois, até 2 de junho, no Centre Pompidou, Georges-Pompidou.Directsoir

Minha vida sem meus dias comuns

Aquele era um dia comum, como todos os outros.  Jantamos ao som de Morphine, enquanto ela sorria e me contava a história de um garoto na sua sala que falava tupi-guarani. Logo em seguida, tomamos um gole de vinho e ela me deu um beijo molhado de lábios roxos.

Antes de dormir, ela enroscou seus pés, gelados como sempre, nos meus, tentando encontrar calor e me deu outro beijo. Esse era um beijo diferente, mas eu não entendi. Era a complexidade dos gestos femininos. Coisas que elas fazem que, com sorte, nós homens, só conseguimos entender séculos depois. Aquele era um beijo de despedida.

No dia seguinte, ela me deixou. Suas roupas, seu cheiro e até mesmo seu corpo, estirado do meu lado, ainda estavam lá. Mas ela tinha partido.

Tentei reencontrá-la em todas as partes. Levei-a ao seu restaurante preferido, coloquei flores na casa, fiz piadas sem graças que ela costuma rir horas seguidas. Um dia cortei meu dedo de propósito, e sem nem reparar na dor, olhei para os seus olhos esperando alguma reação. Ela correu para o banheiro, trouxe água oxigenada e gaze e perguntou se doía. Eu poderia confundi-la com qualquer pessoa no mundo. “Sim, dói muito”.

Aos poucos ela parou de procurar emprego, não foi mais para as aulas, parou de fotografas, pintar, escrever, ler, e por fim, parou de ouvir música. Era uma existência que desistia.

Fiquei desesperado, amargurado, triste e nostálgico. Todos nessa mesma ordem.  O que sobrou de tudo isso foi a minha saudade interminável dos meus dias comuns.

The other side

Não importa o lugar onde ela estivesse, existia um lugar que sempre caminhava com ela. Era o seu quartinho escuro. Ele  era sujo, negro, empoeirado  e não tinha portas. Ela mesma não sabia como entrar lá. Ela só sabia que aquele era o lugar onde ela sempre voltava das suas viagens no outro lado. Não havia nenhum ruído, nenhuma música, mesmo com a poeira, o lugar não tinha cheiro, nada para ver. Era um “nada” insuportável. O lugar em que ela mais se sentia adequada. O cantinho com que ela mais se identificava.

Tinha uma janelinha, que ficava na altura da sua cabeça quando ela estava sentada no chão.  O quarto foi construído especialmente para ela. A sua única atividade diária era sentar-se lá e observar o outro lado. Era tudo bem colorido e tinha brilho. Ela já esteve lá, mas sabia que tudo aquilo, não era para ela.Ela era a menina do quartinho negro. Nasceu assim e morreria assim. Fez milhares de viagens temporárias ao outro lado, mas sempre voltava e se encontrava no escuro, sentada, admirando a felicidade através da janela.

My Blueberry Nights

Inverno europeu é bom para duas coisas: esquiar e assistir filmes. Como eu não sou muito esportista (e também falta dinheiro), estou me deliciando com velhos e novos filmes, seriados e tudo que tenho direito, ao lado do meu aquecedor.

Entre eles, o primeiro filme em inglês do diretor chinês Wong Kar Wai, “My blueberry nights” (Um beijo roubado,em português). O filme, que foi bastante criticado no Festival de Cannes, sendo considerado previsível, me agradou bastante.

Norah Jones, em sua estréia como atriz, é Elizabeth, uma mulher de coração partido que perceber estar no lugar em que ela não deveria estar (“Olhando através da janela eu percebi que estava no lugar errado”), resolve viajar pela América. No caminho ela encontra pessoas, tão ou mais solitárias que ela.

 Enquanto isso, seu amigo, Jeremy (Jude Law), um jovem de Manchester, que também tenta esquecer um amor antigo, lembra com nostalgia dos tempos em que Elizabeth passava em seu bar e comia torta de “Blueberry” que, inexplicavelmente, sempre sobrava no final da noite.

O filme é um quadro de Edward Hooper em movimento, onde pessoas solitárias se encontram e se perdem novamente.

A trilha sonora é muito boa e inclui Cassandra Wilson fazendo um cover de Harvest Moon do Neil Young. A estréia de Norah Jones como atriz é impressionante e eu fiquei mais uma vez apaixonada por um homem que não existe (o último tinha sido Jake Gyllenhaal no Brokeback mountain), o personagem do Jude Law.

Meu trailer favorito do filme está aqui, no site Omelete.

O Cheiro da fumaça.

 O cheiro da fumaça persistia no meu nariz enquanto eu observava o vai-e-vem dos bombeiros nas escadas minúsculas e infinitas que chegavam ao meu apartamento.  Meus ouvidos estavam inativos para o mundo exterior, eles pertenciam às vozes do meu pensamento e não pude ouvir quando a “Madame” do primeiro andar me disse:

-Est-ce que vous voulez un café, un thé ? (Você quer um café, um chá ?)

Eu disse que não, ainda em estado de transe. E talvez, nesse momento, tenha entrado em um estado forçado de meditação. Meus pensamentos pararam de funcionar, assim como meus ouvidos. A única coisa que ainda insistia em permanecer, era o cheiro.Mesmo quando o bombeiro desceu as escadas, com o laptop nas mãos, dizendo que era a única coisa que restava, eu não conseguia achar as partes dentro de mim que me faziam sentir.  

Quando o Federico chegou, eu tive que dizer que não tínhamos mais nada. E com forças que nem sabia que existiam, segurei-o em prantos caídos, os dois na calçada, com cheiro de fumaça impregnado no nariz. As “Madames” foram para suas casas, os bombeiros se retiraram e a noite já tinham chegado sem que eu notasse. A policial, então, nos deu autorização de ver o que restou do apartamento.

Fui subindo as escadas devagarzinho enquanto o cheiro de fumaça ficava mais forte. Andava sobre as cinzas de coisas que eu nem sabia o que tinham sido minutos atrás. Meus pensamentos voltavam de pouco a pouco a funcionar e eu me perguntava o valor das coisas. O que realmente tem valor? Será que o valor que atribuímos está na memória? Então qual o critério da memória? Por que eu consigo me lembrar claramente aquele email que recebi há tanto tempo, lembro de todas as palavras, todas as vírgulas, mas não consigo me lembrar do nome daquela menina que costumava ser minha melhor amiga quando criança?Enquanto eu subia, desciam dos degraus folhas de livros queimadas. Lembrei de Fahrenheit 451 e os homens memorizando seus livros por amor. Será que o valor está no que amamos? Fui pensando o quanto amava minhas coisas e apagando elas automaticamente da memória. Roupas, cartas, fotos, livros e até meu passaporte. Viravam fumaça, assim como algumas partes de mim.  Afinal, a fragilidade da vida também me fez questionar o valor dela.

Quando cheguei ao topo, eu era uma pessoa livre de tudo. A única coisa que restava, era o cheiro da fumaça.

A mudança

Não foi por livre e espontânea vontade, mas eu abandonei o Blogger.  Nunca fui muito feliz com ele, mas tinha carinho pelos meus textos e não queria deixá-los para trás.  Sou bem apegada a memórias apesar de não ter uma memória maravilhosa. Adoro ler cartinhas, diários, ver velhas fotos. Não jogo nada fora. Confesso que não escrevia muito assiduamente no blog, mas procurava escrever pelo menos um texto por mês, para livrar um pouco minha cabeça de pensamentos, além de  gostar de contar histórias. Lembro que quando era criança, fazia histórias em quadrinho para dar para os meus pais e sempre mandava cartinhas para a editora Globo com idéias para as historinhas da Turma da Mônica.Eu gosto de escrever, mas depois do incêndio no meu apartamento (OOOOhhh!!!para quem não sabia), as coisas ficaram um pouco difíceis. Sem casa, sem internet e sem vontade. Porém, agora, uns 4 meses depois, fui tentar escrever no meu blog e descobri que fui bloqueada pois não escrevia há mais de 90 dias. Para completar, ainda corro o risco de perder todos meus textos já que eles podem tirar meu blog do ar, sem aviso. Portanto, copiei meus textos no computador e resolvi fazer outro blog aqui no WordPress por indicação do meu amigo Gabriel.Já que estou mudando, resolvi mudar algumas coisas também no modo de fazê-lo. Vou tentar dividir o Blog em textos e informações. E tentarei, juro que tentarei, escrever mais freqüentemente (não sei se já tiraram o trema da gramática portuguesa, mas eu continuarei escrevendo com trema). O antigo blog continuará lá até que o Blogger decida o contrário, mas agora, eu escrevo aqui, portanto, atualizem seus links e apareçam.