Arquivo do mês: julho 2008

Minhas viagens

Muita gente me pergunta como é morar fora do Brasil. Alguns porque querem fazer o mesmo, outros por terem uma pontinha de vontade que já foi assassinada pela falta de coragem de deixar o país e outros por pura e simples curiosidade.

Por isso eu comecei,em julho de 2007, trabalhar no blog da agência de turismo Sem Destino (link aí do lado). Lá, eu contava minhas histórias parisienses que foram acompanhadas por tantos eleitores até novembro de 2007 quando, devido ao incêndio da minha casa (ver o primeiro post desse blog), fiquei sem teto e obviamente sem recursos para continuar minhas aventuras internéticas.

Mas as perguntas nunca deixaram de serem perguntadas e então eu tive uma idéia melhor. Resolvi reunir todos meus amigos que estão no exterior (Japão, Israel, Espanha, Canadá, Inglaterra, Irlanda, Alemanha e Portugal) e montar um blog contanto as experiências de cada um.

Todos eles amaram muito a idéia e foi com muita força de vontade e carinho que montamos nosso blog coletivo Brasil com Z (brasilcomz.wordpress.com ) onde vamos dividir nossa experiência pessoal com qualquer leitor interessado no assunto.

Se você também quer viajar com a gente, é só dar uma clicadinha aqui.

Para algumas pessoas o silêncio é aterrorizante. Minha mãe é assim. Quando disse que partiria, ela não parou de falar nem para respirar no travessão das palavras compostas. Assim ela conseguia afastar o medo ou a tristeza.

Eu era o oposto, companheira inseparável do silêncio. Enquanto ela falava que se- a –pia- entupir- eu- deveria- usar-bicarbonato-de-sódio, eu pensava nos meus dias calados e passados.

Na noite em claro, que passei olhando as estrelas e ouvindo o barulho do mar, que nesse contexto fazia parte do silêncio eminente. Ele estava ao meu lado e não usamos uma só palavra para nos comunicarmos. Mas nos entendemos melhor que qualquer conversa repleta de verbosidade inútil.

Ou quando perdi minha virgindade. A dor engolida com as palavras que me faltavam, assim como o ar, mas de alguma maneira se transformavam em gozo de prazer, que não era meu.

Foram as mesmas palavras, frases e expressões que não estavam lá quando vi o azul de positivo do meu teste de gravidez.

Mais uma vez minha língua preguiçosa não se movia, quando retiravam o único traço de vida do meu corpo inerte.

Então veio o choro não chorado, a primeiras palavras não ditas e a vida não vivida.

Também quando ele foi embora, de repente, sem dizer onde ia, sem dizer que não havia mais amor. Uma quietude que me inquietava.

-Você tem certeza que vai embora?

Minha mãe perguntou em um respiro da sua fala sem sentido

-Sim.

-Você sabe que seu lar estará sempre aqui, de portas abertas.

Era mentira, mentira materna, mas não menos ofensiva. Eu sabia que a partir do momento que fechasse a porta atrás de mim, perderia meu lar para sempre.

Abracei minha mãe. Sai de casa e bati a porta com força. Era o último barulho que a minha vida calada ouviria.

Too young to die

 

Antes de eu vir para Paris, minha amiga coreana Sunil me deu um cartão postal do artista plástico preferido dela. Disse que se lembrara de mim. O artista em questão se trata de Yoshitomo Nara, e o cartão tem a imagem desse cinzeiro aqui:

 

Yoshitomo Nara é um artista contemporâneo japonês de pop arte. Em suas obras, ele mistura personagens fofinhos e inocentes com armas pesadas, cigarro e outras coisas. Ele critica, principalmente, a perversão da inocência infantil.

Mas segundo a minha amiga, essa imagem faz com que ela se lembra de mim, pois há,claramente,uma contradição de personalidades. Doce e ácida. Inocente e maliciosa. E não existe nada que me caracterize melhor do que a contradição.

Será?