Arquivo do mês: janeiro 2009

A mulher

Tamara lempicka

Tamara lempicka

Ele já dormia profundamente, mas Tereza não. Tereza observava o ritmo da sua respiração como acompanhava capítulos de um romance. Apreensiva, inquieta. Conhecia cada curva perdida no corpo dele. Sabia onde encontrar cada pêlo, mesmo os mais escondidos, como se já tivesse contado metodicamente cada um deles. Reconhecia o cheiro que seu corpo exalava e os correspondia com suas vontades. A fome, o cansaço, o desejo, o medo e o gozo.
Eram casados há 10 anos e não tinham filhos. Tereza vivia para ele. Era o único homem para quem tinha se entregado, por isso essa obsessão em conhecê-lo milimetricamente. Ele era dono do seu corpo e ela queria ser dona do dele também.

Mas aquela noite não. Aquela noite quando ele chegou do trabalho, ela sentiu um cheiro comum de fatiga, porém misturado com um cheiro incomum. Algo que não pertencia a ele. Era um cheio de sexo.  Sexo feminino.

Não dormiu aquela noite. Ele não pertencia mais a ela, mas ela ainda pertencia somente a ele. Por isso, naquela manhã, logo após seu marido partir para o trabalho, ela ligou para um amigo que há muito tempo mostrava um interesse discreto por ela. Disse que seu chuveiro não estava funcionando e precisava de ajuda. Ele foi prontamente ajudar a velha amiga.

Tereza passou creme no corpo, arrumou o cabelo, pintou as unhas e se cobriu com uma toalha para atendê-lo.

– Edu, que bom que você veio. Eu estava pronta para entrar no banho quando a água ficou gelada.

Foram ao banheiro juntos e ela fazia questão de levantar o braço para mostrar onde ficavam as ligações do chuveiro. A verdade é que ela sabia que quando levantava o braço, a polpa de suas nádegas, duras e redondas, apareciam debaixo da toalha.

Ele começou a arrumar o chuveiro, que aparentemente não tinha problema nenhum. E ela recomendou que ele tirasse a camiseta já que estava muito calor.

Foi aí que ela respirou profundamente, como uma virgem que sabe o momento exato em que vai perder a virgindade, tirou sua toalha e encostou os bicos rígidos de seus seios nas costas de Eduardo.

Ele se virou para ela tão repentinamente e lhe colocou sua língua quente dentro da sua boca. Beijava-a com fome. Fome de um faminto.

Ela se sentiu desejada de novo. Sentia-se também repugnada por estar colada a um corpo completamente desconhecido. E isso lhe dava um desejo diferente. Uma vontade de ser explorada e de explorar.

E ele, que havia reprimido seus desejos por tanto tempo não esperou, e a penetrou lá mesmo, inclinada na pia do banheiro.

Tereza se sentiu plena, completa.

Quando a noite chegou, o teste final chegara com ela. Será que seu marido perceberia que seu corpo não pertencia mais a ele?
Seu coração pulava de ansiedade quando ele lhe deu um beijo de boa noite e preparou seu prato para jantar, como fizera todos os dias.

Foi então que ela soube que ele não percebera nada. Que na verdade, seu corpo nunca fora dele. E o corpo dele, de tão conhecido, se tornara dela, mesmo estando com outras. Tereza, aquela noite, se sentiu a mulher mais livre e poderosa do mundo.

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