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Maternidade e realidade

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Com 26 semanas nesta foto

Esta sendo um ano de notícias ruins. Crise hídrica, crise elétrica, inflação, aumento de juros, de desemprego, de taxas básicas, de luz, de água, aumento, aumento, aumento. Tudo esperado, mas não deixa de ser assutador. Em consequência, pessoas enfurecidas, loucas, acreditando em soluções mirabolantes ou defendendo causas cegamente, o que é, igualmente, aterrorizante.

Enquanto isso, Francine está se formando dentro de uma mãe cheia de receios com o mundo em que ela irá vir contemplar. Talvez ela encontre um mundo mais duro que o que eu vive, ou que, ainda em um mundo de pedra, ela seja capaz de encontrar a cor.

Brincar de adivinhar o futuro é divertido e assustador, mas a verdade é que quero que tudo aconteça de maneira mais natural possível e só quero que ela seja exatamente do jeito que ela é, construindo seu próprio caminho.

Estou com 30 semanas de gravidez e ela se mexe bastante aqui dentro. Li alguns artigos sobre  o Efeito Mozart , dizem que colocar composições de Mozart para o bebê ouvir, além de estimular o cérebro, acalma. Verdade ou não, Francine já está ouvindo, além de Mozart, Vivaldi, Beatles, Nora Jones, músicas francesas, entre outras. Ela não acalma muito, não. Acha que é festa e continua se movendo, normalmente toda para o lado direito, como ela gosta de ficar.

Fora meus receios, minha curva glicêmica alterada e meus dias mais tristes com menos brigadeiro, tudo caminha bem

Depois volto pra contar mais.

A escolha do nome

O avô do meu marido era francês, que morava na Bélgica, mas ainda amava a França. Em homenagem ao tão amado país, deu à sua filha o nome de Francine Emilienne Lucie.

A primeira Francine, infelizmente, não está mais entre nós. Quando Federico tinha 3 anos ela falaceu. Gostaria muito de tê-la conhecido, pelas histórias que contam, ela me parece alguém muito corajosa, inteligente e que pensava fora da caixa para os padrões da época. Viajou à América Latina por amor, cuidava de pessoas com síndrome de down. É alguém que já admiro sem nem conhecer.

Francine

Francine Emilienne Lucie

Meu pai, quando soube que o nome dela era Francine, colocou na cabeça que eu teria uma menina e ela chamaria Francine, mesmo antes de eu cogitar minha gravidez.

Qualquer ligação telefônica começava da seguinte maneira: “fifi, estou atratrapalhando a produção da Francine?”.

O último email de aniversário que recebi do meu pai , antes dele falecer, foi este:

“fifi meu amor,

O que dizer a vc que já não foi dito,

que vc é uma pessoa maravilhosa, inteligente, trabalhadora, sensivel,

linda, enfim vc é a filha que qualquer pai desejaria.

um beijão bem grande minha filha

e não esqueça da francine.“

Papai: Antônio Alberto Mantovani

Papai: Antônio Alberto Mantovani

Ambos não estão mais aqui para conhecê-la e transmitir essas personalidades maravilhosas de coragem, sensibilidade, criatividade e humor. Mas espero que o nome que escolhemos tenha a força de fazer esta homenagem no tamanho que os dois merecem.

Filha

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Eu costumo chorar em filmes, você ainda vai ver. Confesso que às vezes choro com anúncios e até vídeos bobos da internet. Agora que estou esperando você, choro vendo partos. Mas quero te contar sobre um dia que não chorei.

Morava em Paris com seu pai e cheguei do mercado com as compras na mão. 8 andares sem elevador, descancei um pouquinho no sexto, como de costume. Chegando em casa, joguei as compras na cama e senti um cheiro estranho. Saí para ver o que era e reparei que o apartamento ao lado estava em chamas. Peguei minha bolsa e desci o mais rápido possível pedindo para ligarem para o bombeiro (Pompier! Pompier!).

Logo os bombeiros estavam lá, era chama para todos os lados e um dele desceu com meu computador falando ”só sobrou isso”.

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Casinha pós incêndio…

Neste momento, não pude chorar. Teria que reconstruir tudo e precisava guardar essas energias.

Seu pai chegou logo em seguida, veio vindo com a baguete nos braços pela rua e já sentia que havia algo errado. Quando falei que perdemos tudo, ele chorou nos meus braços. Eu me mantive com a força e racionalidade que precisamos pra construir tudo novamente nos dias a seguir.

Neste momento, entre suas lágrimas e o barulho de carros de bombeiros é que senti o que é ser mulher. Senti que sou uma mulher que tem as emoções em mim, mas também o equilibrio e a força. Notei que, ao contrário do que dizem, chorar não é fragilidade. As lágrimas são a vitrine das suas emoções, uma pequena amostra deste furacão de vida que passa dentro de você. E não se engane, minha filha, quanto mais se vive, mais forte você se torna.

Há uns dias descobri que você é menina. Um mundo de pensamentos me surgiram. Gostaria de te transmitir tudo que já vivi, sorrisos, tristezas, alegrias, que chegariam magicamente pelo cordão umbilical e te pouparia de passar por algumas situações, mas isso não seria viver. Você precisa rir, chorar, se sentir forte e descobrir o verdadeiro sentido de ser mulher em alguns deste momentos da vida.

Venha  ao mundo minha filha, traga com você seu sorriso, energia e força e o resto você descobre.