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Balanço do ano

Última semana do ano e, mesmo com a vida correndo feita louca (percebesse pela escassez de textos do blog), vem aquela vontade bem clichê de refletir sobre o que se passou.

2010 foi um ano intenso e, apesar de parecer que fiz um milhão de coisas, quando olho pra trás elas não parecem tantas assim.

Meu primeiro ano de casada, com o Federico, meu maridão, que está comigo em todos os momentos. Me dediquei de corpo e alma a minha carreira. Além dos dias intensos na empresa, também comecei a tão esperada pós graduação, e voltar a estudar realmente me faz bem.

O apartamento já está quase pronto, e com ele aprendi tudo sobe madeira, granito, pisos e coisas das quais não sabia nem o nome antes de precisar.

Fui a trabalho para Recife, onde conheci pessoas, lugares e comidas maravilhosas. Além das inúmeras visitas à Curitiba, em que, infelizmente, não pude desfrutar tanto da cidade.

No Rio, conheci o melhor amigo do Federico e sua recém esposa, tomando rum colombiano à beira mar  durante a noite.

Fui ao show do Pixies e sim, fiquei arrepiada e com os olhos cheios de lágrima.

A Europa parece cada vez mais distante sobrando somente os traços de lembrança e uma leve nostalgia de ter passado por lá.

Devido à correria do dia-a-dia, não consegui ver todos os amigos como queria, mas os fiéis sempre entendem e sabem que estou presente, mesmo que distante.

Finalizo falando da minha família, maravilhosa, me ajudando com todos os mínimos detalhes.

Venha 2011, tenho planos ambiciosos pra você!

O tudo e o nada

Oswaldo Goeldi

Eu era tudo para ele. Em meus olhos ele encontrava a pessoa que eu sempre quis ser. Amável, paciente, alegre, charmosa, inteligente. E ele era o pensamento que caminhava insistentemente entre o lúdico e o real.

O que houve com nós dois ninguém saberia explicar. Alguns dizem que o tempo não era certo, outros,  que o destino não quis.

O que sabemos é que, no começo, éramos tudo, então passamos para contatos intensos, beijos sem intenção, telefonemas perdidos, sms de madrugada, despedidas, dor, traição, rejeição, pensamentos distantes, pequenas lembranças, significantes esquecimentos,  pó, fumaça, nada.

A mulher

Tamara lempicka

Tamara lempicka

Ele já dormia profundamente, mas Tereza não. Tereza observava o ritmo da sua respiração como acompanhava capítulos de um romance. Apreensiva, inquieta. Conhecia cada curva perdida no corpo dele. Sabia onde encontrar cada pêlo, mesmo os mais escondidos, como se já tivesse contado metodicamente cada um deles. Reconhecia o cheiro que seu corpo exalava e os correspondia com suas vontades. A fome, o cansaço, o desejo, o medo e o gozo.
Eram casados há 10 anos e não tinham filhos. Tereza vivia para ele. Era o único homem para quem tinha se entregado, por isso essa obsessão em conhecê-lo milimetricamente. Ele era dono do seu corpo e ela queria ser dona do dele também.

Mas aquela noite não. Aquela noite quando ele chegou do trabalho, ela sentiu um cheiro comum de fatiga, porém misturado com um cheiro incomum. Algo que não pertencia a ele. Era um cheio de sexo.  Sexo feminino.

Não dormiu aquela noite. Ele não pertencia mais a ela, mas ela ainda pertencia somente a ele. Por isso, naquela manhã, logo após seu marido partir para o trabalho, ela ligou para um amigo que há muito tempo mostrava um interesse discreto por ela. Disse que seu chuveiro não estava funcionando e precisava de ajuda. Ele foi prontamente ajudar a velha amiga.

Tereza passou creme no corpo, arrumou o cabelo, pintou as unhas e se cobriu com uma toalha para atendê-lo.

– Edu, que bom que você veio. Eu estava pronta para entrar no banho quando a água ficou gelada.

Foram ao banheiro juntos e ela fazia questão de levantar o braço para mostrar onde ficavam as ligações do chuveiro. A verdade é que ela sabia que quando levantava o braço, a polpa de suas nádegas, duras e redondas, apareciam debaixo da toalha.

Ele começou a arrumar o chuveiro, que aparentemente não tinha problema nenhum. E ela recomendou que ele tirasse a camiseta já que estava muito calor.

Foi aí que ela respirou profundamente, como uma virgem que sabe o momento exato em que vai perder a virgindade, tirou sua toalha e encostou os bicos rígidos de seus seios nas costas de Eduardo.

Ele se virou para ela tão repentinamente e lhe colocou sua língua quente dentro da sua boca. Beijava-a com fome. Fome de um faminto.

Ela se sentiu desejada de novo. Sentia-se também repugnada por estar colada a um corpo completamente desconhecido. E isso lhe dava um desejo diferente. Uma vontade de ser explorada e de explorar.

E ele, que havia reprimido seus desejos por tanto tempo não esperou, e a penetrou lá mesmo, inclinada na pia do banheiro.

Tereza se sentiu plena, completa.

Quando a noite chegou, o teste final chegara com ela. Será que seu marido perceberia que seu corpo não pertencia mais a ele?
Seu coração pulava de ansiedade quando ele lhe deu um beijo de boa noite e preparou seu prato para jantar, como fizera todos os dias.

Foi então que ela soube que ele não percebera nada. Que na verdade, seu corpo nunca fora dele. E o corpo dele, de tão conhecido, se tornara dela, mesmo estando com outras. Tereza, aquela noite, se sentiu a mulher mais livre e poderosa do mundo.

Voltando para onde tudo ficou.

Edward Hopper

Edward Hopper

O blog está abandonado. Desculpem leitores, mas os últimos meses pareceram dias, e os dias tinham cara de horas… isso sem contar às horas que se passaram em um piscar de olhos.

São as mudanças da vida. Menos de três anos, três países, pelo menos umas seis casas, muita informação nova, muitos empregos, descobertas e o choque de voltar para casa.

Parece que fiz uma viagem no tempo. Fiquei viajando por anos e anos, ultrapassei os limites do homem no espaço e quando voltei, tinha passado só um dia de quando parti. Tudo estava no mesmo lugar. Minhas roupas, meu quarto, meu bairro. Só faltava uma peça. E não sei se ela existe mais ou se perdeu em meio à vida que a levou para longe como um furacão.

The tree of life

The tree of life - Gustav Klimt

The tree of life - Gustav Klimt

É isso aí. Novamente é hora de tomar decisões.  Muitas e grandes. Aquelas que mudam o percurso da nossa vida e de outros também.
Mas a preocupação só aparece para aquelas pessoas que levam a sua própria vida a sério. E eu levo.
Não deveria. Nunca saberei se as decisões tomadas foram certas ou erradas, afinal, não se vive novamente para fazer tudo diferente e quando acabar dizer “Não a decisão anterior foi melhor”.
Mas pelo menos, as decisões ainda estão no meu poder.  A vida não veio como um acidente geográfico que estreita os caminhos e só deixa uma opção. Uma opção, ruim ou boa, porém, unitária.
Essa é a vida, sem lógica alguma. Sem estatística. E eu vou indo, abrindo portas e deixando que outras se fechem automaticamente, sem saber o que poderia existir lá dentro.

Para algumas pessoas o silêncio é aterrorizante. Minha mãe é assim. Quando disse que partiria, ela não parou de falar nem para respirar no travessão das palavras compostas. Assim ela conseguia afastar o medo ou a tristeza.

Eu era o oposto, companheira inseparável do silêncio. Enquanto ela falava que se- a –pia- entupir- eu- deveria- usar-bicarbonato-de-sódio, eu pensava nos meus dias calados e passados.

Na noite em claro, que passei olhando as estrelas e ouvindo o barulho do mar, que nesse contexto fazia parte do silêncio eminente. Ele estava ao meu lado e não usamos uma só palavra para nos comunicarmos. Mas nos entendemos melhor que qualquer conversa repleta de verbosidade inútil.

Ou quando perdi minha virgindade. A dor engolida com as palavras que me faltavam, assim como o ar, mas de alguma maneira se transformavam em gozo de prazer, que não era meu.

Foram as mesmas palavras, frases e expressões que não estavam lá quando vi o azul de positivo do meu teste de gravidez.

Mais uma vez minha língua preguiçosa não se movia, quando retiravam o único traço de vida do meu corpo inerte.

Então veio o choro não chorado, a primeiras palavras não ditas e a vida não vivida.

Também quando ele foi embora, de repente, sem dizer onde ia, sem dizer que não havia mais amor. Uma quietude que me inquietava.

-Você tem certeza que vai embora?

Minha mãe perguntou em um respiro da sua fala sem sentido

-Sim.

-Você sabe que seu lar estará sempre aqui, de portas abertas.

Era mentira, mentira materna, mas não menos ofensiva. Eu sabia que a partir do momento que fechasse a porta atrás de mim, perderia meu lar para sempre.

Abracei minha mãe. Sai de casa e bati a porta com força. Era o último barulho que a minha vida calada ouviria.

O livro que escolhe quando quer ser lido.

Paul Auster

Naquela época eu lia “A trilogia de Nova York” de Paul Auster e, ao mesmo tempo em que seus personagens a lá Sherlock Holmes in Wonderland me faziam viajar em um mundo desconhecido, eu procurava informações sobre Londres, a cidade no qual moraria o próximo ano.

Foi nessa época e por essa razão que eu conheci o Rafael. Ele era o dono de uma comunidade no Orkut chamada “Eu odeio Londres” e talvez porque eu seja mais curiosa a respeito da crítica do que a respeito do elogio, essa comunidade me chamou atenção antes das outras.

Lá estavam crônicas, incrivelmente bem escritas que me impressionaram e principalmente, me fizeram rir e viajar pelas entranhas mais obscuras da minha nova cidade. Entrei em contato com o senhor autor e descobri que, além da intimidade com gostos em geral, o Rafael era fanático por Paul Auster.

Como já havia devorado meu primeiro livro pedi uma indicação de um novo. Ele sugeriu um livro chamado “Achei que meu pai fosse Deus”. Procurei esse livro em vários lugares em São Paulo, mas não consegui encontrá-lo. Quando, finalmente conheci o Rafael, ele havia desistido de lutar contra o seu ódio e tinha resolvido se mudar para São Paulo. Portanto minha primeira semana em Londres era a última semana dele. Foi uma semana intensa e divertida em que tentamos conhecer o máximo da cidade entre descobertas e despedidas.

Quando meu inglês já estava bom e o Rafael já estava em algum lugar de São Paulo, fui procurar novamente o livro para ler e nada. Ele não queria ser lido. Então,quando já tinha desistido de procurá-lo ele resolveu aparecer aqui,em uma livraria de Paris e sem nem pensar duas vezes o comprei. ”Je pensais que mom père était Dieu” é meu primeiro livro em francês (por escolha dele mesmo).

Sabe aqueles programas de rádio que a sua avó escuta no qual o radialista lê a cartinha dos leitores que enviaram histórias reais e estranhas? Paul Auster reuniu várias dessas histórias de quando ele trabalhava na National Story Project e editou esse livro maravilhoso, cheio de lágrimas, sorrisos e sincronicidades verdadeiras que, nesse momento, alegra minhas tardes de primavera parisienses.